A gente tem mania de olhar pras pingas, já dizia o meu pai, posteriormente citando o ditado “Você vê as pingas que eu tomo, mas não vê os tombos que eu levo”.
Pois bem, 2011 foi o melhor ano da minha vida. Perdoem-me aqueles que não tiveram um ano tão bom, um ano mais ou menos ou um ano de merda. Pra mim aconteceu. E foi lindo.
E é assim mesmo que funciona. Provavelmente vc teve seu melhor orgasmo enquanto eu via TV aberta numa tarde de domingo, e eu nem reclamei, então faça a gentileza de não me rogar praga agora.
A verdade é que a vida é um movimento constante, e nós nem sempre estamos na mesma fase. Vi hoje que um cara morreu e deixou esposa e 3 filhos. O réveillon deles não vai ser tão bom quanto o meu. Mas provavelmente foi melhor que meu réveillon de 2006 quando eu passei a virada com as pernas enfaixadas por causa de uma cirurgia e a garganta infeccionada, tomando um antibiótco caríssimo que não funcionava...
São tantos os tombos, que eu já me sinto à vontade pra divulgar as pingas, então vamos a elas.
Os fracassos são muito mais importantes do que a gente imagina. Além de nos dar assunto pro Twitter, eles servem pra nos fazer crescer, pra nos fazer superar, pra nos fazer melhores. Eu tive muitos, mas muitos mesmo, maus momentos nos últimos anos.
Eu não contei pra ninguém pq eu não queria correr o risco de deixar algum filho da puta feliz com a minha desgraça. Mas eu conto agora: eu cresci com eles.
Eles vieram numa sequência sem fim, e se arrastaram por bem mais que um ano. E eu aguentei quieta, sozinha. E ninguém perguntou, e eu nunca contei. E ninguém nunca se preocupou a ponto de insistir, e eu nunca me importei a ponto de compartilhar. Eu dei meu jeito, eu superei e passou.
E eu escrevo isso ouvindo Ramones, que era a mesma coisa que eu ouvia quando me trancava no meu quarto e não falava com ninguém, porque eu achava que era perda de tempo e ninguém me entendia mesmo.
A diferença é que antes eu me importava se iam me entender e hoje eu me importo se meu plano de previência privada rendeu o que o banco me prometeu que ia render.
Enfim, aprendi muita coisa – ainda não aprendi a a ser menos prolixa, mas saiba que isso está na lista --, e hoje eu me gabo de ter tido um ano foda, de ter conhecido pessoas incríveis, de estar com uma pessoa que eu me orgulho de ter ao meu lado.
E o mais importante de tudo isso é que eu aprendi que pode ser que no ano que vem eu esteja aqui reclamando que tive o pior ano da minha vida, que tudo deu errado e blá blá blá. E sabe por quê? Por que a vida é assim. É uma sequência de coisas que dão certo e errado, independentemente do que vc quer.
A diferença é que à medida que vc amadurece, vc consegue escolher se vai seguir por aqueles caminhos tortuosos ou se vai pegar a estrada com caras bronzeados com rolas de 90 cm batendo na sua cara ao som de Rod Stewart cantando “Do you think I’m sexy?”.
Aconteceu com vc? Pois é, comigo tb não. Enfim, vc se envereda pelos caminhos tortuosos pq essa é a opção que vc tem, e vc tenta fazer o melhor com o que a vida te dá.
Pois em 2011 a vida me deu mais, e eu estava pronta para aproveitar isso. Eu não estava pronta em 2007, nem em 2008, nem em 2009 ou 2010. Eu estava pronta neste ano e recebi o melhor que eu podia receber e me deleitei com isso. E foi bom pra caralho.
E sabe o que eu vou fazer segunda-feira? Eu vou começar tudo de novo. Como você. Como todo mundo. Torcendo pra dar certo, torcendo pra fazer o meu melhor. Se eu fracassar? Acontece, já fracassei tantas vezes, não vai ser novidade. Se eu me der bem? Vou ficar no mais intenso silêncio, pq tenho medo de gente que vê que vc tá feliz e começa a rogar praga na sua felicidade.
Em suma, vou tomar meu garrafão de cachaça e ficar insistindo que foi só uma dosezinha.
Feliz 2012 a todos que me fizeram ver que a vida tem coraçõezinhos. Vocês sabem quem vocês são. E vocês foram verdadeiros heróis por terem conseguido ler essa merda até o fim.
Como é de praxe, um dos e-mails mais interessantes que eu recebi nos últimos anos não é pra mim, veio por engano na minha conta.
Mas é fascinante, é uma pessoa contando a sua história para a outra - que sou eu, mas ela não sabe. E a história nem é tão sensacional, mas sim a forma que a pessoa imprime seus sentimentos num texto, até meio mal-escrito, em que se percebe que foi redigido por alguém bastante simplório.
Começa que o meu e-mail tem meunome.sobrenome, enquanto uma gata homônima criou seu e-mail com meunomesobrenome. Mas para os gatuchos do Gmail, as duas contas são as mesmas. De modos que eu direto recebo e-mails que são para ela, o que me faz concluir que ela também deve receber e-mails que são pra mim (dessa forma, eu já aconselho vocês a parar de me mandar essas mensagens cheias de confissões chulas, pq depois vai cair na net e nem vai ser culpa minha).
Enfim, chegou um e-mail com o título “Desculpa”, enviado por uma tal de Guiomar. Na verdade, um tratado. E, bom, como se sabe, eu sou detentora de uma das vidas mais entediantes do hemisfério sul, o que me garante tempo para ler e-mails do tamanho de um tratado que não são endereçados a mim.
O resumo do texto é o seguinte: a minha homônima, não satisfeita em me fuder com esse e-mail dela que chega pra mim, é testemunha de jeová. E essa mulher que mandou o e-mail também era, mas desistiu. E o e-mail é justamente a explicação dos motivos dela para estar fazendo essa desistência.
E na explicação ela praticamente descreve a sua vida. Ela tem uma filha doente, há anos doente, completamente dependente e sem chances de melhora (não sei qual a doença). E na Congregação ela se sente abandonada pelas pessoas. Apesar de eles dizerem que lá são todos irmãos, ninguém a ajuda e nem sequer perguntam como está a menina.
Mas o pior é a parte em que ela fala de Deus. Diz que não consegue acreditar no amor de alguém que a faz sofrer tanto. Que se ele fosse grande mesmo, a salvaria dessa dor. E que nem adianta dizer pra ela que a doença da filha é coisa do demônio, pq tudo lá nego bota a culpa no demônio (confesso que nessa parte eu ri). Enfim, posto isso, ela diz a minha homônima que tá picando a mula.
É engraçado ver como alguém que mesmo sem conseguir se explicar consegue demonstrar tamanha desesperança. Eu sempre pensei como é que tem gente que se droga de fé para suportar as dores do mundo. Vivem numa resignação que me deixa louca. O que dá certo foi “Graças a Deus” e o que dá errado foi “Porque Deus sabe o que é melhor”.
E eu imaginava que era mesmo mais fácil para as pessoas desprovidas de intelectualidade encontrarem explicações bem simplistas sobre os seus problemas, ao invés de pararem um pouco para refletir sobre eles.
Para mim, a maior supresa foi ver que mesmo algumas dessas pessoas mais humildes uma hora se enchem. Ela pode não ser genial, pode não ter grana para pagar um terapeuta ateu, mas ela não é idiota. Na simplicidade do seu raciocínio, ela conseguiu completamente sem querer soar filosófica.
E o pior é que nem tem ninguém perto pra contar isso a ela, porque todo o restante do seu círculo de amizades tá em algum lugar gritando “Aleluia”.
Esse lance de Realengo acabou tendo em primeira instância dois desdobramentos meio que óbvios: o primeiro é o blábláblá que tem tingido as páginas de jornais nos último dias; o segundo é a galera tirando o pó da memória e lembrando quando foi vítima/autor de bullying na sua infância.
Eu sou tão velha que na minha época não tinha esse nome. Aliás, não tinha nome nenhum, porque não era nem sequer um assunto. A gente nem comentava com os pais. Era como se fosse mais uma matéria da escola que tínhamos que estudar e passar. Mas ao contrário das outras, nessa não tinha professor ou livro ensinando como proceder. E muito menos internet, né?
Sofrer bullying é como entrar involuntariamente em uma guerra na qual você está programado para perder. Você está lá, na sua, chega um chato e começa a te zoar. Se o chato tem um “defeito”, beleza, você tem uma arma. Se ele não tem, ou você não vê nenhum, é como se você estivesse jogado no chão tomando pontapés: só vão parar quando cansarem.
Eu tinha um defeito óbvio: era gorda. E ser gorda é um looping sem fim: você é gorda > as pessoas riem de você > você fica frustrada > você come mais > você fica mais gorda.
Não satisfeita em ser gorda, aos 9 eu tive que começar a usar aparelho. Daqueles freios de burro. Curiosamente, parte dos meus problemas se resolveu graças a isso. Mais especificamente graças à embalagem do aparelho, uma bolsinha de plástico duro. Foi com ela que eu bati na cara de um menino que me zoou, para surpresa dele. O mais engraçado foi ele fazendo um esforço desesperado pra não chorar na frente dos amigos após ter apanhado na cara de uma menina. Uma menina gorda, ainda por cima.
Com isso, dos meninos eu me livrei. Porque eu batia neles mesmo. E como tanto eu quanto eles sabíamos que eles não podiam bater em mim (machismo, te amo), me zoar ficava uma coisa meio dolorida pro lado deles.
Mas faltavam as malditas meninas. E uma delas, em especial, era a maior filha da puta que eu já conheci. Tinha 11 anos. E, repito, era a maior filha da puta que eu já conheci.
Ela pegava no meu pé para tudo, fazia piadinhas, ridicularizava. Era indiferente se eu estava fazendo alguma coisa ou simplesmente existindo; ela sempre me inseria nos assuntos para me detonar. Sempre com a aprovação das outras meninas, outros anjinhos também na faixa dos 11 anos.
Eu acho que essa vaca me infernizou por mais de um ano, até que um dia eu falei em alto em bom som sobre o “defeito” dela. Não era propriamente um defeito, e eu não me orgulho muito do que eu falei, na verdade, até porque não era nem de longe o que eu pensava. E eu também nem vou dizer o que é, porque eu tenho medo de ser linchada pela turma dos politicamente corretos.
Mas se eu não achava que aquilo era um defeito, eu sabia que ELA achava. E era o que importava, né? Fora que foi tão bonito vê-la chorando compulsivamente, foi quase um pôr-do-sol em um vinhedo no interior da França. ♥
O fato é que a forma que eu encontrei para me livrar do bullying foi praticar o bullying.
As pessoas passam a te respeitar não porque elas adquirem uma inédita consciência sobre o mal que estão fazendo, mas porque passam a te enxergar como uma frigideira quente: se botar a mão ali, vai queimar.
De tudo isso, só dá para concluir o óbvio: a maldade humana não tem fim. Até porque o bullying persiste na idade adulta, no preconceito, no racismo, no machismo e na homofobia.
E com essas leis tão frouxas quanto professoras de ensino fundamental, a saída se resume a torcer para que ninguém implique com você.
Eu me lembro que descobri o que era amor lendo a revista Capricho. Eu tinha, sei lá, uns 12 ou 13 anos e nessa idade, na minha época, a gente lia Capricho.
Daí tinha uma matéria com uma leitora que estava fazendo intercâmbio sei lá onde, e ela mandava fotos e descrevia coisas sobre a vida dela. Pensando bem, acho que era uma seção da revista, mas se você não jogou sua vida no lixo estudando jornalismo, isso não faz grande diferença.
Enfim, havia em uma foto o cachorro mais feio do mundo. Sério, ele não tinha formato, não tinha cor, e tenho sérias dúvidas se ele não estava de costas quando a foto foi batida. No que eu olho a legenda, tá assim “Esse é o fulano, meu cachorro. Ele não é lindo?”.
E foi assim que eu descobri o que era o amor. Ele não é só cego, como dizem por aí, ele é dismórfico. Quando a gente tá apaixonado, acontece alguma merda no nosso sistema nervoso central, que até o cheiro da pele da pessoa a gente sente diferente (vide eu in love pelo bafo da minha gata).
A parte boa é que, quando a paixão acaba, a pessoa volta ao normal. Tipo eu vendo foto de ex-namorado e me controlando pra não cortar minha própria jugular com um descascador de batata.
Porém, meus amigos, tem um caso em que a dismorfia persiste ad eternum. Oh, yes, é quando elas dão à luz.
E se você for mulher, você tá fudida.
Começa que a sua sina é aturar crianças. Se não os seus filhos, os filhos dos outros. Com a desvantagem de não poder enchê-los de tapas quando eles encherem o saco. E termina que você tem envolvimento zero com a criança, pra você aquilo é um joelho, enquanto pros pais o Messias chegou.
Mas tudo pode piorar quando a sua amiga bota no mundo um bebê assustadoramente FEIO, e, óbvio, não sabe.
Daí que a cada encontro ela traz álbuns de fotos do tamanho dos Lusíadas registrando cada momento daquela coisa feia. E cada foto era seguida da pergunta: “Ele não é lindo?”.
Meu, ele não é lindo. Ele é feio pacas. Inclusive, eu acho bom você matricular esse menino em vários cursos de idioma, estimular muito a inteligência dele e garantir que ele ganhe MUITO dinheiro e LOGO, porque com essa cara, temo em dizer que ele não vai fazer sexo nem pagando.
Mas daí eu respondo “Lindo, lindo lindo! Também, puxou a mãe gatona!”.
Porque olha, mais importante do que saber o que é o amor, é saber como manter uma relação. E nesse caso a regra de ouro é mentir. Mentir muito.
Então que eu tive que levar meu único vestido de festa para a costureira arrumar. Porque num passado longínquo eu o emprestei a uma “amiga” que teve a cara de pau de me devolvê-lo todo fodido e rasgado. Isso é de uma época que ficou para trás, quando eu fazia das tripas coração para ter amigas mulheres. Tem hora que a persistência vira teimosia, e insistir é nada além de burrice.
Elas não gostam de mim e pronto. Deve ser algum hormônio que elas produzem e eu não, de modos não rola química. Enfim, foda-se.
Daí ver se a costureira dava um jeito no rasgo.
Então que a costureira tá diversificando, agora também oferece serviço de tinturaria e lavanderia. Curiosa, e com preguiça de andar mais UM GIGANTESCO QUARTEIRÃO até a minha lavanderia de sempre, pergunto quanto custaria lavar o vestido por lá.
Resposta dela: R$ 35. Achei meio caro, sabe? Não que eu esteja a par da tabela de preços das lavanderias desse nosso Brasil, mas se houvesse gente pagando R$ 35 pela lavagem de um vestido, eu já teria mudado de ramo.
Então fiz o hercúleo sacrifício de andar uma quadra até a lavanderia e perguntar o preço: 20 reais.
Melhor que isso: a costureira-lavadeira-tintureira leva as roupas para essa mesma lavanderia. Vamos às contas. Ela pega meu vestido, anda um quarteirão, deixa na lavanderia. Paga 20 reais. Três dias depois, ela anda mais uma quadra, pega meu vestido limpo, me devolve e ganha R$ 35. Quinze reais para andar dois quarteirões. Gente, acho que temos um recorde aqui.
Sabe, eu entendo que não tá fácil pra ninguém, mas num sei se não acho mais digno você sair por aí assaltando do que fazer isso que ela faz.
Tô a par que tem um monte de gente que faz isso em escala industrial e tals. Mas esse povo ao menos disfarça, né?
Tipo eu sei que a gente é feito de idiota uns bons 90% da nossa vida, mas quando isso não tá muito na cara, a gente finge que não percebe, parece que não aconteceu e tudo dá certo no final.
Mas quando tá assim tão exposto, tão óbvio, tipo a filha da puta que me devolveu o vestido rasgado sem nem sequer dizer “olha, eu rasguei seu vestido, me desculpa”, eu fico bem brava.
Só que amiga maldita a gente pode por pra correr, enquanto costureira é algo muito raro de se encontrar. Tá na categoria “amor verdadeiro”, junto com mecânico e manicure não-carniceira.
De modos que até segunda ordem, aquela mau-caráter continua remendando meus rasgos.
Eu me lembrava vagamente de uma mulher com o rosto deformado. Um dos olhos, acho que o direito, quase explodia para fora de seu rosto, moldado por uma pele escura, arroxeada. Era o que se poderia chamar de aberração. Enfim, hoje eu soube que ela morreu. Hoje eu também soube que ela era prima da minha mãe.
Ela nasceu com tumores. O olho prestes a explodir era um tumor. Outros vieram. Por fim, teve câncer nos ossos e morreu disso na véspera do Natal.
Em alguns casos, honestamente, a morte é uma bênção. Minha mãe me contou que ela cuidou dos pais até a morte de ambos. Depois, se dedicou às ações da igreja e ao trabalho voluntário. Não consta que algum cara tenha se interessado por ela. Porque o amor é lindo.
Às vezes imagino porque algumas pessoas têm uma vida tão desgraçada. Um caga-regra diria que é para mostrar aos mais afortunados que grade sorte eles têm, mas eu duvido que a vida de alguém tenha como único motivo servir de exemplo para outro – bom ou mau.
Porque quando falamos da vida de alguém não podemos ignorar a sua vontade. Tem gente que não se resume a aceitar o que tem. Feia e rejeitada, ela arrumou amor para distribuir a outros rejeitados como ela. Outras pessoas mais fracas provavelmente se trancariam em casa em depressão profunda e esperariam os parentes se distraírem para cortar os pulsos.
Ela fez da própria desgraça uma bênção para os outros. E foi, à sua forma, amada.
Acho que no caso dela a religião foi indispensável mesmo. Porque se você não pensar que foi vontade de Deus, como viver se olhando no espelho? Como aceitar tamanha desvantagem em relação a seus pares? Como não se revoltar?
Daí que com meu rosto de olhos alinhados eu começo a sentir uma ponta de inveja dela. Porque ela conseguiu ter fé, e a partir disso, o resto.
Mas, enfim, não creio que ela viveu tentando ser um exemplo para alguém. Ela tentou buscar o máximo de satisfação da forma que podia. Se você é linda, faz muito sexo; se você é feia, é bastante boazinha.
Até porque fazer trabalho voluntário faz tão bem para quem faz quanto para quem recebe. Nada como a sensação de estar sendo determinante e fundamental na vida de alguém. É quase como um grande amor que você vive com várias pessoas. E pessoas que não te trocam por outra depois que você engorda.
É meio que uma maternidade sem a necessidade de ter que acordar de madrugada ou trocar fralda. Mas a gratidão vem mesmo assim. E você nem precisa pagar a faculdade porque aquele debiloide não conseguiu passar na universidade pública.
É ter por parte de estranhos o que os conhecidos não te deram, porque enquanto uns só são capazes de amar o que é belo, outros conseguem se alimentar de gratidão como se estivessem mastigando amor.
Ele nasceu às 5h55 do dia 5 do mês 5 da madrugada de uma noite de inverno. Ainda gritava de frio e de fome quando foi encontrado por uma mulher que acabara de ter o pneu do seu carro furado. A numerologia não falha, pensam os mais otimistas.
Penalizada, ela levou o pacote completo – mãe e dois irmãozinhos - para casa. Até que estivessem todos restabelecidos um dono haveria de surgir. Afinal, quem não quer um gatinho?
Como toda cria de gatos vira-lata, cada um nasceu de uma cor. Uma gatinha branca e amarela, um macho amarelinho e nosso gatinho todo mesclado, com o marrom como cor predominante. Dócil, mas feio o coitado.
Talvez por isso tenha visto a irmã ser adotada, o irmão ser adotado, e até a mãe ser adotada. Sem condições de criar um gato, a mulher que os salvou acabou entregando-o para o Centro de Controle de Zoonoses.
No mesmo dia, uma mulher que havia matado o gatinho da filha sem querer apareceu por lá desesperada em busca de outro animal. Precisa estar em casa antes de a menina voltar da escola. Mas tinha que ser branco, ou a menina desconfiaria de que não era o mesmo gato.
O CCZ não costuma ter muitos gatos disponíveis para adoção, explicou a veterinária. Eles costumam ser adotados com mais frequência do que os cachorros. Inclusive, naquele momento, não havia gato algum por lá. Apenas um vira-lata marrom. Quer ver? Quero.
Apesar de morar em um bairro nobre de São Paulo (ou talvez por causa disso), seu cheque especial estava estourado, não havia chances de passar numa pet shop e comprar um gatinho de raça branco. Ela tinha uma reunião importante em meia hora. Vai esse mesmo, disse. Com alguma lábia e um pouco de criatividade ela convenceria a pirralha de que é tudo a mesma coisa. O gato já estava até ronronando no seu colo, oras.
A numerologia é tudo mesmo. Nosso gatinho se viu em uma casa enorme, com um grande jardim, uma caminha fofa e muita ração. Cheirou, olhou, brincou. Enfim, um lar.
Até que a dona do gatinho branco chegar da escola. Entrou como toda criança, jogando suas coisas pelo chão. Com sua voz alta e aguda, gritava por seu bichinho. Não o encontrou. Foi informada pela empregada de que ele não estava mais lá. Mas havia um outro gato no lugar. Liga pra tua mãe que ela te explica, disse a resignada serviçal. Ela teve meras quatro horas de felicidade entre o óbito do felino branco e a chegada daquele vira-latas. Continuaria tendo que passar aspirador de pó todos os dias para dar conta daquele monte de pêlos que costumavam ficar impregnados por todo lugar.
Após alguns minutos de gritos que se revezavam entre Não, Eu não quero e Devolve o meu gato, a dona do gatinho branco desligou o telefone e correu para o quarto, onde passou algum tempo chorando. Parece que a lábia da mãe estava relativamente baixa naquele dia.
Enquanto ela chorava, ouviu um barulho no portão. Animada, levantou correndo, achando que era a mãe trazendo seu amado gatinho de volta. Afinal, esse negocia de levá-lo para uma fazenda florida não fazia o menor sentido, né?
Não era a mãe. Era o michê namorado na mãe. Encostado e jovem, ele voltava de sua academia de shopping e se dirigia a mais uma tarde de sol na beira da piscina. Já havia sido informado pela mulher do que havia acontecido. Aliás, só não havia ido ele procurar o gatinho porque não podia interromper sua série de musculação no meio. O whey perde todo o efeito se você não faz a série direitinho, sabe?
Tentou fazer jus à vida mansa e convencer a dona do gatinho branco de que o novo gatinho tinha poderes especiais, era melhor ainda do que o gatinho que fora embora.
Mais calma, a dona do gatinho branco, resolveu procurar pelo novo brinquedo pela casa. O michê o achou escondido no banheiro da empregada. Segurando-o pela mão, mostrou à menina, que o olhou com cara de nojo. Ele é feio, disse. Ainda segurando o vira-lata rejeitado, o michê argumentou. Mas ele já gosta de você. A frase prendeu a atenção da menina. Ele já gosta de mim? Claro. Olha só como ele te olha.
Esperançosa, ela foi pegar o bichano no colo. Assustado, ele saiu correndo. A menina do gatinho branco então voltou à sessão berreiro, e atrapalhou a tarde de piscina do michê.
A mãe voltou do trabalho no fim da noite. Deu uma com seu namorado bronzeado. Comeu seu peito de peru light. Deu uma espiada no quarto onde a filha já dormia. Perguntou sobre o gato. Está escondido no banheiro da empregada, disse o michê. Se é assim, deixa a ração e água dele por lá. Aproveita e põe a caixa de areia também. A empregada vai reclamar. A empregada que se foda.
Mas a numerologia, meus amigos, a numerologia não falha. A dona do gatinho branco se sentiu só. Não sabia mais como viver sem o seu brinquedo. Entediada e solitária, abriu a exceção das exceções. Foi até o banheiro da empregada tentar criar algum vínculo com aquele gato feio mesmo. Afinal, se tem algo que o ser humano não suporta mesmo é ficar sozinho. No resto se dá um jeito.
Como todo feio ele era fácil. Bastaram 15 minutos sentada na porta do banheiro para o focinho do gato aparecer. Ele fez carinho em sua cabeça, ele ronronou. Ela coçou suas costas, ele começou a andar de um lado para o outro se esfregando na mão dela. Ronronando, dizia à dona que ele era, também, seu dono. Ela jogou uma bolinha de papel. Ele foi buscar. Ela riu. Pegou um barbante e chacoalhou no ar. Ele tentou pegar. Resignada, a empregada aproveitou para lavar aquele banheiro que fedia há exatos 15 dias.
Entardeceu. De sua cadeira na beira da piscina, o michê olhava aquela garota enternecida com seu novo gatinho. Paz e silencio, enfim.
Mas para que servem as avós, não é mesmo?
Um belo dia, a mãe do cara que pagava a pensão alimentícia que sustentava todo mundo lá dentro apareceu no aniversário da neta. O presente? Uma gatinha branca para fazer companhia ao gatinho branco.
Não tem mais gatinho branco. Como não tem mais gatinho branco? Ele morreu. Mas morreu de quê? Ninguém me contou nada! Ninguém tem que te contar nada, já não basta o tanto que vc se mete na minha vida. Eu tô cagando pra sua vida, só quero saber como está a minha neta. E seguem-se mais alguns minutos de bate-boca.
E corta para os olhos cintilantes da menina ao ver aquela linda gatinha persa no meio da sala, em meio aos presentes. Agora sim, era tudo o que ela queria. O gatinho marrom foi cheirar a nova companheira, que se assustou com aquele gato grande olhando para ela. E antes que ele também pudesse se assustar com o susto da gatinha, levou um safanão da ex-dona do gatinho branco, agora dona da gatinha branca, cujo coração não comportava espaço para dois bichos de estimação. Com sua voz aguda, gritou Não machuca a minha gata, seu nojento!, passou a mão em seu novo brinquedo e saiu correndo entre as crianças no meio da festa.
Atordoado com o safanão, ainda sem entender direito o que havia acontecido e assustado com todo aquele barulho, o gatinho marrom foi para seu porto-seguro, o banheiro da empregada. E lá ficou por alguns dias, até receber uma inusitada visita. Uma fresta na porta fez um pouco de claridade entrar no banheiro. Ainda incomodado com a luz, ele viu aquele focinho achatado adentrando seu refúgio. A gatinha branca se aproximou devagar, pata ante pata, veio andando em sua direção. Cheirou-o, e recuou um pouco. Cheirou-o mais uma vez e recuou de novo, no que parecia um balé desengonçado e mal ensaiado. Ele também criou coragem e foi sentir o cheiro dela. Em sua língua, aquilo era um Como vai você?. Em alguns minutos, um dava banho no outro. Em algumas horas, dormiam aninhados.
A dona da gatinha branca voltou da escola. Cadê minha gata?, perguntou à empregada. Tá lá no banheiro com o outro gato. Ela correu até lá, pegou a gata com a mão e saiu. Foi abraçá-la e sentiu um certo incômodo com o seu cheiro. Ela estava exatamente com o mesmo cheiro daquele gato, droga! Vou dar banho nela, pensou.
Encheu a banheira da mãe de água, jogou bastante daquele sabonete líquido da L’occitane e mergulhou a gata que gritava desesperada lá dentro. Assustado com os berros da felina, o michê foi até o banheiro ver o que era agora. Alertado pelos gritos de sua nova amiga, o gatinho marrom também correu para lá. Era a primeira vez que entrava na casa desde que chegara, há quatro meses. Se virando como podia, ele miava alto, como se pedisse à dona para que soltasse sua amiga. Se virando como podia, o michê explicava à filha de sua provedora que gato não gosta de banho. Mas ela está fedida, argumentava a pirralha. Mas ela vai se lavar sozinha. Me dá ela aqui, disse o michê, já prevendo outro assassinato de gato e toda a história começando de novo. Pegou a gata, ainda com sabonete nos pêlos, enxugou-a muito toscamente e a pôs no sol. Agora vc deixa ela aqui até ela se secar, ordenou à menina.
Mas tão logo a gata tocou o chão com as patas, correu em direção ao refúgio. Sim, o banheiro da empregada. Foi seguida pelo vira-lata e pela menina, que o puxou pelo rabo para evitar que ele entrasse no banheiro junto e impregnasse a gata com seu cheiro de novo. Ao conseguir agarrá-lo direito, ela o jogou no lugar mais próximo que encontrou, a piscina. Desesperado e de posse do mais aguçado instinto, ele cravou suas unhas no braço dela, se segurando para não ir de encontro à morte. Suas garras afiadas cortaram a fina pele da menina, cuja voz aguda cortou os tímpanos do michê, que ainda se limpava de toda aquela bagunça no banheiro da casa. O que foi agora? O gato me arranhou. Mas assim, de graça? É, de graça.
Assustado, após arranhar a menina, ele havia entrado no banheiro da empregada, junto com a gatinha. Irritada, a pirralha encheu um balde de água e jogou lá dentro, em cima dos dois, que saíram apavorados, se escondendo nos arbustos do lado da piscina. Quando ela já corria atrás deles, foi surpreendida pelo michê. Agora chega. Mas eu quero brincar com a minha gatinha! Mas ela não quer brincar com vc! A empregada vai fazer um curativo no seu braço e vc vai para a sala ver tv. EU vou cuidar da gata enquanto isso. Mas ela vai ficar fedendo do lado do outro gato. Não vai, eu prometo, disse o michê com o mesmo tom confiável que já tinha funcionado tantas outras vezes com a mãe dela.
Naquela tarde, enquanto a menina se entretinha com a tv e depois com o celular e depois com a internet, o vira-lata e a gatinha branca se lavaram, se limparam, se aninharam e ronronaram enquanto dormiam, por hora, em paz.
Ao chegar em casa à noite, a mãe encontrou sua filha cortada, sua banheira cheia de pelos de gato e seus arbustos bagunçados. A empregada, mal-humorada, ainda terminava de limpar o banheiro após o balde d’água que a menina jogara lá dentro. Molhou toda a cama do gato, molhou toda a caixa de areia.
Ninguém viu como que o gato arranhou a menina. Então só havia uma versão a ser contada. Mas a mãe também não era idiota. É bem provável que ele não tenha arranhado a garota de graça, mas é certo que ela não quer mais o bicho. Ela já tem a gata que ganhou da avó mesmo. Esse gato só tá servindo para deixar a gata fedida. Se soltá-lo na rua, ela faz dois favores. Um pra própria filha, outro para o gato feio que terá a chance de encontrar outro dono. Abrir o portão não resolve. É provável que ele fique aqui na porta berrando.
Cansada, já fazendo a contagem regressiva das horas que lhe restavam de sono, ela passou a mão no gato e o jogou dentro da Pajero. Dirigiu até achar um lugar bacana: o parque Alfredo Volpi, que fica no cruzamento da Avenida Cidade Jardim com a Rua Oscar Americano. Se esse gato não arrumar um dono aqui, não arruma em lugar nenhum, pensou. Pôs o gato no chão e arrancou com o carro.
Apavorado, ele se encolheu ao se ver naquela imensidão em meio a tanto barulho. Estava entrando no parque quando se assustou com alguns garotos que saiam de bicicleta e correu em direção à avenida. Desviando dos carros, conseguiu chegar ao canteiro central, na frente do Bradesco. Mas viu algumas pessoas vindo em sua direção e correu para atravessar a rua. O semáforo havia aberto, e os carros vinham em sua direção. Com o coração a milhão e ele conseguiu desviar do carro que vinha na primeira faixa. Não desviou do segundo. A roda passou exatamente em cima de sua cabeça. Seu corpo ficou lá estendido, decaptado, numa poça de sangue.
Pela manhã, a menina passou ao seu lado quando era levada pela mãe à escola. Ela até o viu, mas achou que era um dos cachorros que sempre eram atropelados por lá. Em breve ele seria só mais uma mancha no asfalto, só mais uma história que não deu certo em São Paulo. Putz, mas e a numerologia? A numerologia que se foda.
Hoje eu me lembrei de uma minissérie ou filme que eu vi uns 35 séculos atrás.
A mulher era casada com um cara chiclete, ciumento, inseguro e por vezes violento, quando percebia que não estava dando conta do recado, e só não a perdia porque a obrigava a ficar com ele.
Então a gata mudou de estratégia. Falou pro cara que estava grávida, mostrou felicidade com a notícia e fez o debiloide acreditar que o relacionamento deles tinha virado uma maravilha do dia pra noite.
Daí, num jantar com os amigos igualmente chatos dele, ela pede licença para ir ao banheiro, alegando estar um pouco enjoada, provavelmente por estar nos primeiros meses de gravidez - o cara era tão noia que nem ao banheiro a deixava ir sozinha.
Mas talvez confiante por esse novo momento na vida dos dois e acreditando que a gravidez havia "mudado" sua mulher para melhor, ele a deixa ir ao banheiro em paz.
Ao perceber que a mesma demorava para voltar, visivelmente incomodado, ele é obrigado a deixar cair a máscara de homem confiante na frente dos amigos e invadir o banheiro em busca de sua fêmea desobediente.
Ela não estava lá. Havia fugido pela janela. Mas deixou um bilhete pra ele, no qual se lia "vomitei você".
Não sei se vou viver pra ver, mas olha só: tava pensando em criar um esquema de materialização de michês.
Você toma aquele banho à noite antes de dormir, depois de um dia difícil de trabalho. Daí com seu pijama com estampas de vaquinha e a sua pantufa pata de monstro você se dirige ao armário e nos cabides, em vez de roupas, fotos de bofes.
Vocês escolhe um, aperta um botão, e o cara se materializa no seu quarto. Você faz uso dele, aperta o botão e ele volta pro cabide, deixando a cama king size só pra você.
Daí a gente podia fazer o pagamento no cartão de crédito, como faz com o "Sem Parar".
Um sensor avisa sempre que a gente usou o produto, e a agência de michês debita na nossa conta.
Daí você, estraga-prazeres de merda, vem me dizer: "Por que você não pede por telefone, como todo mundo?".
Porque para isso é necessário planejamento. É tipo comprar carnê para todos os jogos que seu time vai fazer no ano. No início, parece bem negócio, pois você paga menos pelos ingressos. Depois, quando você tiver perdido uns dez jogos, vai ver que teve prejuízo.
O legal é estar no meio do banho, pensar "Acho que eu quero dar", e o cara estar a disposição cinco minutos depois.
Daí você, arrombado dos infernos, retruca: "Então por que você não arruma um cara pra morar com você?"
Porque isso atrapalha a questão da escolha. Se tem um cara morando com você, há apenas uma opção.
Além do mais, se tem um cara morando com você, é provável que ele esteja gordo. Aliás, se tem um cara morando com você, é bem provável que você também esteja gorda.
E gente gorda não faz sexo. Ou pelo menos não deveria, para o bem da estrutura da cama king size.
Francamente, eu não sei porque esse povo fica pesquisando coisa inútil como cura pra aids e afins, como uma ideia tão brilhante quanto a materialização de michês em busca de patrocínio.
E falo mais. Um dia eu vou estar velha, cercada de pequinês, com bóbis na cabeça, fumando cigarro Capri, e vou ver algum filho da puta recebendo um prêmio Nobel da Paz por ter roubado a minha ideia e possibilitado o processo de materialização de michês.
E você, seu arrombado estraga-prazeres, se não tiver seu cérebro carcomido pelo Alzheimer até lá, vai lembrar que viu essa ideia primeiro aqui.
Te falar que é uma merda ficar sem laptop. Eu já tinha preguiça de postar quando podia fazer isso sentadinha na minha poltrona. Agora, que preciso ligar um desktop e ficar apenas ouvindo o som da TV, aí que fode tudo.
Fora que sempre me falta o básico: assunto. Eu estou de férias, de modos que minha pauta preferida, que é falar mal de gordas, anda sem muita importância no momento. Além do mais, estou com uma cintura monstra e 55 cm de coxa, o que também me deixa desmoralizada (meu, 55 cm é quase o que uma mulher magra tem de cintura; e eu tenho isso de perna, caralho).
Meu outro assunto, o futebol, está suspenso, assim como o Brasileiro e a Libertadores. A Copa só tem homem lindo, e eu não quero ficar pagando de cadela no cio por aqui, porque já tenho feito isso no Twitter.
Eu queria mesmo era dizer sobre a maravilha que é a vida de vagabundagem que eu ando levando. Porque eu não me lembro quando tirei férias pela última vez, nem quando tive dinheiro e tempo ao mesmo tempo na vida.
E pra mim é muita novidade sair de 4ª ou 5ª feira e voltar pra casa às 8h da manhã. A parte das 8h da manhã é pq eu não tenho noção mesmo, porque até as pessoas que vivem de balada já estavam cansadas às 4h, mas eu tava achando tudo tão legal que nem reparei que o tempo passava.
Sério, tô me sentindo uma adolescente. TÃO adolescente que já estou colecionando duas espinhas do tamanho do Etna no meu queixo. Mas isso é porque eu continuo com crise de gordice, e a última delas foi devorar meio quilo de brownie. E vou te falar que na minha lista de "10 maiores trepadas da minha existência" o brownie da Bella Paulista está em 3° lugar.
Mas voltando a minha adolescência, é muito legal ser desocupado. Quem critica tem é inveja. Acordar meio-dia, almoçar às 3h da tarde, passar o dia fazendo exatamente nada. Nossa, tudo isso é maravilhoso. As olheiras sumiram, meu sono melhorou, meu humor tá um show. Minha única responsabilidade tem sido ir ao shopping fazer compras.
E posso falar? É muito bom. Tô no meio da coisa, e tô zero cansada de ser inútil. Pelo contrário. Eu poderia levar essa vida de peso morto pra sempre. Ok, que eu já fodi minha última semana de férias arrumando um frila, mas aí é porque eu sou um peso morto pobre, e o frila vai pagar bem.
Porque senão seria que nem essas meninas branquinhas e rosadas que eu sempre via tão lindas na balada e nunca entendia como elas podiam ser tão bonitas levando uma vida tão desregrada.
Até eu descobrir que desregrada era a minha vida, com poucas horas de sono, muitas de trabalho e aquela folha corrida de contas pra pagar. Dormir às 5h da manhã quando você pode acordar às 3h da tarde não é vida desregrada, é vida.
Vida desregrada é acordar às 6h da manhã e pegar trânsito pra chegar num lugar onde todo mundo vai passar no mínimo oito horas enchendo o seu saco.
De modos que, olha, férias é algo que eu muito recomendo, viu? E se alguém descobrir uma forma de viver de vadiagem e mesmo assim ter renda, me avisa urgente.
Botaram uma casa para alugar na minha rua, em frente ao prédio onde eu moro. É um sobrado lindinho, com dois quartos. E tem até quintal. Seu aluguel sai 30% mais barato do que o que eu pago por mês.
Parei, pensei, e não fui.
Porque uma casa deve encher de baratas no verão, enquanto no 8º andar eu tô livre disso.
Também porque em uma casa qualquer um tem acesso a minha campainha, o que inclui testemunhas de Jeová. No meu prédio os porteiros servem de cães de guarda para esse tipo de inconveniência.
De modos que 30% do meu aluguel por esse tipo de tranquilidade me parece um preço justo.
Já saber que baratas e testemunhas de Jeová são elementos determinantes nas minhas tomadas de decisões me parece um tanto deprimente.
Horas antes da nova década, Boris Casoy nos brindou com sua mentalidade arcaica. Enquanto dois garis desejavam feliz ano novo, o áudio vazou e veio o comentário (com risos ao fundo da produção puxa-saco): "Que merda: dois lixeiros desejando felicidades do alto da suas vassouras. Dois lixeiros. O mais baixo na escala do trabalho".
Aí o vídeo foi pro You Tube, todo mundo reprovou, e é claro que ele pediu desculpas. Quem olha o Boris Casoy apresentando jornal hoje não sabe a importância que esse homem já teve. E eu não me refiro à época em que ele fazia a Dona Benta no Sítio do Picapau Amarelo (Tudum! Tssss!).
Boris Casoy foi editor-chefe da Folha de S.Paulo, reconhecidamente o maior jornal do Brasil, por mais que a Globo se esforce. Apresentou telejornais em quase tudo o que é canal de TV e tem uma plateia fiel. É, até hoje, um formador de opinião da classe média brasileira. E tem a opinião que tem. A gente olha um cara com a cultura dele, e não imagina que ele possa ter um preconceito tão baixo sobre as pessoas.
Só que a gente não conhece ninguém, né? Na era do politicamente correto, então, não conhecemos nem nós mesmos.
Às vezes acho que se o áudio do que a gente pensa vazasse, como aconteceu com Boris Casoy, iríamos todos presos. Nossa ignorância nos permite formar *pré-conceitos* sobre as pessoas e generalizar na maioria das vezes.
Porque a gente é assim. Paradoxalmente, quando vemos alguém fazendo algo tão tipicamente nosso, nos chocamos.
Eu não acho que ser lixeiro é o mais baixo na escala do trabalho. Acho que todo trabalho é digno, por mais que seja mal-remunerado. E, vou te falar, tem que ser macho pra varrer por oito horas debaixo de sol, chuva, vento e frio. Eu varro por 15 minutos debaixo do teto do meu apartamento e quase me arrebento.
Mas eu admito que já concordei com muita opinião preconceituosa do Boris Casoy.
Posso não ter exatamente os mesmos preconceitos que ele, mas também tenho preconceitos. Só que graças a Deus meu áudio não vaza. Porque se ninguém fica sabendo tá tudo certo, não é mesmo? E assim caminha a humanidade.
Fui parar num almoço com 60 idosos ontem. Coisa da minha mãe, claro. Aí eu vou, com vestido de frente única e perfume floral, aquele sorriso de dama simpática, cumprimentando todo mundo e tals. Tava cheia de classe, até servirem o almoço. Daí Pedro&Bino saíram gritando atrás do prato de comida, e meu perfume floral foi substituído pelo cheiro de molho de tomate da lasanha.
Mas não era esse o caso. O caso é que toda vez que eu vejo gente velha eu fico pensando em como vai ser quando eu envelhecer. Tá, quando eu envelhecer mais. A impressão que dá é que depois de uma certa idade só as pessoas da sua idade têm paciência para ouvir você. As mais jovens não estão interessadas no que você tem a dizer, e as mais velhas já morreram.
E você sabe que sua vez está chegando. Como deve ser viver sem fazer planos? Não digo planejar uma viagem à praia no fim do ano, mas aqueles planos pra daqui a uma década que a gente faz.
Tudo bem que é pura perda de tempo, já que nada do que eu planejei dez anos atrás acontece hoje. E olha que eu tinha vários planos Bs, e nem eles deram certo. Mas só a hipótese de poder fazer novos planos para daqui a dez anos dá um “up”, né? Faz a gente achar que ainda tem jeito.
O que eu penso é no que acontece quando você sabe que chegou no fim do filme. Quando não tem jeito de ter uma reviravolta no roteiro, porque já é tarde demais. Quando você conclui que a história é (só) essa.
E de “plus” você ainda está flácida, com a cara cheia de rugas e sem dentes. E ninguém quer te ouvir.
Eu fico pensando como vai ser quando chegar a minha vez.
Será que eu vou entrar em depressão? Vou arrumar mais gatos? Vou pagar um michê pra ficar dançando de sunga fio dental pra mim? Vou entrar num Rotary da vida e participar de jantares chatos? Vou virar aquelas putas velhas que tomam porre em botecos de beira de estrada? Vou ser viciada em calmantes/remédio para dormir? Ligarei para o CVV? Serei voluntária do CVV? Nenhuma das anteriores, porque eu devo morrer engasgada com um osso de frango em 2015?
Ter medo do futuro é uma burrice, é fato, e deve haver umas 497 frases de efeito sobre isso, mas uma vez na vida outra na morte eu admito que me cago de imaginar o que eu vou fazer quando me der conta de que minha linha está acabando.
Pronto, já pensei no assunto, já expus meus medos e mostrei a bunda-mole que eu sou. Fecham-se as cortinas e reprimam-se os temores. Passou. Ao menos até o próximo evento com trilha sonora do Ray Conniff.
Estou sentindo uma vergonha alheia danada com esse caso da expulsão da aluna da Uniban. Não conheço a menina, não conheço a faculdade, não conheço os alunos que fizeram a palhaçada. Mas é inevitável ver que o desfecho que a situação teve é mais do que preocupante, é angustiante.
Nesta semana eu tomei um esporro de uma colega de trabalho por usar um vestido que ficava transparente ao sol. Posto que não fazia sol no provador da loja, eu não sabia disso quando o adquiri. Tomar conhecimento da situação me causou um constrangimento sem fim. E fora isso, uma raiva danada da gorda recalcada que me acusou de querer me exibir indo trabalhar com uma roupa indecente.
Triste é constatar que essas pessoas estão aí, no mesmo mundo que a gente, trabalhando e estudando do nosso lado – cuidado, algumas inclusive dormem do nosso lado. E conviver com elas faz parte das agruras de ser humano. Não há nada mais fascista do que querer que o outro seja igual a você. Então, vá lá, viva a diversidade.
Mas o que mais me emputece mesmo é ver que ser pequeno a mulher ainda é na sociedade de hoje. Como ainda é fácil humilhar e desrespeitar uma mulher, com a conivência, inclusive, de mulheres. Quando eu vejo gente falando que a menina “pediu” o que aconteceu com ela por causa da roupa que estava usando, dá vontade de chorar.
Não vou dizer o já gasto “se isso está acontecendo em uma universidade...”, porque honestamente não considero a Uniban uma universidade. Assim como Unip, Uninove, FMU e outras tranqueiras que sugam o dinheiro do estudante em troca de um diploma cujo valor de mercado é igual a zero. O fato é que enquanto a classe alta paga cursinho no Anglo pra passar na USP, os pobres vão pra Uniban e acham que também têm ensino superior. Vô sê dotô.
Independentemente de onde tenha se dado o incidente, o que me incomoda é o fato de isso ainda acontecer. É o fato de que mesmo com todo o conhecimento estando tão mais acessível nos dias de hoje, as pessoas ainda insistirem em serem reacionárias como 40 anos atrás. É o fato de o cara querer ter um diploma de nível superior, mas manter sua mente provinciana e preconceituosa.
A ideia da universidade era a busca pelo saber. Hoje virou a busca por melhores salários. É por isso que a gente vê tanta gente ignorante correndo atrás do deproma. E enquanto os quatro anos não passam, elas jogam truco.
Uma vez eu comecei a namorar um cara que não tinha curso universitário, era mais duro que pau de tarado em porta de zona e falava “pra mim fazer”. Logo eu, jornalista e revisora de texto, filha de uma professora de português. Comentei o fato com a minha mãe e perguntei o que ela achava.
Ela me disse que eu não deveria me preocupar com o nível de instrução, nem com o nível econômico do cara, mas sim com o tipo de mentalidade dele. Porque instrução é algo que se pode adquirir a qualquer momento, e a situação econômica de uma pessoa sempre pode mudar. Mas quem tem mentalidade pequena vai ser sempre ignorante, não importa quantos livros leia ou quanto dinheiro ganhe.
E, na boa, se tivesse vestibular pra mentalidade, não teria aluno pras tantas universidades que existem por aí. O que fazer com elas? Algo mais útil, como transformar em estacionamento.
Sério que fiquei passada de ver que meu último post foi em julho. Não achei que estava assim há tanto tempo sem escrever. Mas aí me lembrei do Twitter. Sim, eu aderi àquela desgraça. Sim, ele fudeu a minha vida. Só não digo que eu engordei por causa do Twitter, porque a gente sabe que certas coisas caminham lado a lado com o Gênesis.
Enfim, há mais de ano que amigos comentam que aquilo é tudo de bom. Mandam convitinhos e tals. Eu olhava pra página deles e achava tudo chatíssimo. E não encarava.
Só que depois que eu visitei perfis geniais como @ocriador, @millorfernandes, @kibeloco, @juvenaljuvencio, @mrguavaman, @diaboloiro, @luizasm, @katylene e @danieli_, entre outros, eu resolvi participar também.
E lá se foi a minha vida. Confesso que já aconteceu mais de cinco vezes de eu passar uma sexta ou sábado à noite tuitando em vez de saindo, dançando, trepando, morrendo ou whatever. Também tenho gastado bem meu horário de almoço conferindo posts, em vez de almoçando.
Já a leitura empacou feito gorda em catraca: já são dois livros começados empoeirando ao lado da cama. Pra ajudar agora eu tenho um smartphone, o que me permite ficar tuitando na internet, até onde não tem internet.
Na última vez em que fui ao estádio ver meu time jogar levei o telefone comigo e não tive dúvidas: fiquei tuitando o jogo inteiro. Tudo bem que o jogo era São Paulo X Atlético MG, que teve um gol no 1° minuto do 1° tempo, e depois 89 minutos de puro sofrimento e frio. Mas ir ao estádio era algo que eu costumava gostar de fazer.
Em resumo, o Twitter é mais uma daquelas coisas que faz a gente esquecer como a nossa vida é pouca e chata. Vem a febre, a gente fica viciado e não pensa em mais nada. Fala besteira, se diverte com as besteiras que os outros falam, conhece gente, e assim caminha a humanidade. Tipo um Orkut mais dinâmico e sem foto.
Você segue alguém e é informado sempre que esse alguém profere um pensamento genial. Por outro lado, toda vez que vc tem um acesso de brilhantismo, os coitados que te seguem também são informados.
Daí vc descobre que tem amigos queridos que só falam besteiras. E gente que vc mal conhecia e nem gostava, mas que é divertidíssima. Incrível como algumas linhas mudam o nosso conceito...
Então vc faz o que faz na vida: se o amigo é muito querido, vc releva o fato de ele ser chato e continua seguindo. Se além de chato ele for megacomunicativo (tipo 50 posts por dia falando besteira), é hora de ele perder um follower, e vc um amigo. Sim, pq se ele descobre que vc parou de segui-lo no Twitter, ele para de olhar na sua cara. Pensa que é fácil? Mas, na boa, eu me arrisquei a perder algumas amizades e parei de seguir um monte de gente. Tudo por uma timeline clean & clever.
Por outro lado, sigo um monte de gente que eu nunca vi mais gorda, e que me divertem diariamente com suas vidas agitadas, entediantes, fracassadas, bem/mal-humoradas, etc.
E se vc nunca me viu, mas quiser me seguir, @8th_floor.
Estava agora gloriosa almoçando na frente da TV quando passou aquele comercial da Kaiser em que três modelos que nunca tomaram cerveja na vida ficavam imaginando como seria se os homens fossem mais sinceros.
Aí segue-se uma sequência de cenas em que os papais-sabe-tudo da vida fazem suas mulheres de idiotas (o que vc quer que eu faça? comerciais que exploram o sexismo são sempre um grande sucesso; talvez a Camille Paglia tenha uma explicação raivosa sobre o assunto).
Mas, enfim, tudo para dizer que eu realmente fiquei chocada com uma cena. O cara está no bar dizendo pra mulher, pelo celular: "Que escritório, meu amor? Eu tô tomando uma Kaiser com a galera!".
Cara, tem coisas que não se conta. Confessar assim, sem mais nem menos, que você bebe Kaiser, é uma delas. A cerveja é um horror. E não tem mulher gostosa nem baixinho de boina que mude isso. Mas não se pode negar que eles seguem tentando.
... e para isso ele fez um vídeo e postou no You Tube declarações de amor a sua futura deusa. Ao som do Kenny G, ele enche nossos ouvidos com o que ele crê ser toda aquela baboseira que mulher gosta de escutar.
E nos brinda com o seguinte momento:
“Noooooossa senhora, eu não posso esperar o momento de nós estarmos juntos, abraçado, coladinhos um com o outro, aquele carinho gostoso que só você sabe dar”.
Aí acho que ele para e pensa que tá fazendo um anúncio que será respondido [será que será?] por alguém que ele nunca viu na vida e tenta consertar:
"Nesse momento, não tenho nem palavras. O negócio é procurar a família", disse o goleiro Fábio, quando voltou ao campo para a premiação. Sua declaração foi poucos minutos antes de Verón, em meio a uma música de ópera, levantar a taça Libertadores, com chuva de papel picado.
Beethoven virou "uma música de ópera". Perguntar pro colega ao lado às vezes ajuda. Na dúvida, ligue para a sua mãe. Ou pro Alex DeLarge.
Ronaldo disse ontem, na Sportv, que o Governo Lula está indicando empreiteiras para o Corinthians construir seu estádio.
Um verdadeiro absurdo. Demonstra claramente o nível de proximidade entre a cúpula corinthiana e o PT.
Além disso, o comprometimento dessa gente com o cartel de empreiteiras fica cada vez mais evidente. José Dirceu, o mentor de Lula, é a principal ligação entre Andres Sanches, Corinthians e o partido.
Esta afirmação de Ronaldo não pode passar despercebida. Precisa ser investigada e questionada pela população.
O Governo não pode servir de intermediário para construção de Estádio para a iniciativa privada. Tenho certeza que há assuntos, no País, bem mais urgentes.
Escândalo Nacional: Governo Lula “doa” CT ao Corinthians Julho 8, 2009 by Paulinho
O escândalo da construção do CT corinthiano continua repercutindo.
O blog apurou, com fontes do PT, que o Presidente Lula já indicou a Andres Sanches o contato de algumas empreiteiras ligadas ao Governo.
Mas a ajuda não para por ai. O custo do projeto seria escandalosamente abaixo do mercado. Mais de 60 % de descontos parcelados a perder de vista.
Traduzindo nas entrelinhas: o Governo do PT praticamente vai doar a obra para o Corinthians.
Os empreiteiros encaram o prejuízo como um favor ao Presidente da República. Um escândalo nacional !
Quem pode garantir que estas empresas não serão, se é que já não foram, beneficiadas em licitações governamentais. Como o Governo retribuirá a “gentileza” ?
O Presidente chefe de quadrilha uniu-se ao que tem medo. O resultado não poderia ser diferente.
A melhor defesa do mundo toma gol de cabeça do Messi. Cristiano Ronaldo, como sempre, pipoca. E o Barcelona é o campeão da Uefa Champions League.
Agora eu serei obrigada a virar a casaca e torcer para o Palmeiras ganhar a Libertadores, de modos que em dezembro a humanidade saberá se Obina é melhor que Eto'o.
Em "Harry & Sally", Billy Crystal diz a Meg Ryan que não existe amizade entre homens e mulheres.
Em Goiás, José Roberto de Oliveira diz a Luziano Costa da Silva que não existe amizade entre homens e homens. Isso rende uma canção bonita pro Leonardo interpretar.
Tem coisas que só o Parreira. O Fluminense perde em casa para o Santos, de virada e de goleada, logo após perder a vaga na Copa do Brasil para o Corinthians no meio da semana (também em casa). A torcida, claro, reclama. Parreira segue pra entrevista coletiva, na qual declara: "O torcedor é muito impaciente". Aliás, que eu me lembre, o Fluminense só ganhou daquele São Paulo esfacelado. Ah sim, e dos competitivos times cariocas no regional deste ano.
Pureza
Essa é a Nina, em foto tirada nesta manhã. Mal sabe que eu marquei banho e tosa pra ela, coitada.
A vida é mais ou menos assim: se você tem emprego fixo, com registro CLT e tudo mais, quando você fica doente, vai ao médico do convênio; se você é profissional liberal e ganha bem, vai ao médico particular; mas se por acaso você é autônomo e ganha mal, você vai na AMA mesmo.
Tem coisas que eu só tinha visto pela TV, tipo a AMA. Ano passado, durante os programas do Kassab, elas apareciam de paredes brancas, com médicos vestindo branco e pacientes de sorriso branco. Talvez pra gente pensar que era o próprio paraíso – ou algum comercial de creme dental clareador.
Pois eu vou te falar que hoje a parede estava ocre, os médicos vestiam azul marinho e as crianças estavam embaixo de grossas camadas de remela. E elas gritavam. Loucamente. Enquanto as mães, verdadeiras discípulas de Angelina Jolie, tentavam equilibrar a criança histérica e seus demais 5 filhos no colo.
Enfim, falar que eu peguei uma fila monstro, que levei duas horas para ser atendida, que provavelmente peguei gripe suína ou tuberculose naquela sala de espera, tudo isso é padrão. Se não aconteceu com você, aconteceu com alguém que você conhece.
Mas o que valeu mesmo o post foi a atendente da recepção. Eu chego lá e ela me pede a carteirinha do SUS e a descrição do meu problema. Após decepcioná-la e dizer que eu não possuía uma carteira do SUS (serve a identidade?), eu conto que estava com uma inflamação na região do apêndice.
Ela mal olha na minha cara, pergunta meu nome completo (puxa, será que isso não estava escrito na identidade?), imprime uma folha, me dá para assinar, junto com a recomendação para que eu aguarde mais uma hora para passar pela médica.
Sem problemas. Eu estou na rede pública de saúde, já sei que vai demorar. Triste mesmo é quando você paga médico particular e toma chá de cadeira. Eu costumo me virar bem em fila. Fiquei amiga de uma mulher que, ao ouvir o relato do meu problema, constatou que não era apêndice. “Acho que você está com infecção urinária”, informou.
Enfim, chega a minha vez. Chego na sala da médica, que diz: “Então, Patrícia, qual é o problema”? “Meu nome é Denise”, corrijo. “Não é Patrícia Simões”? “Não, é Denise Moraes” “Você não mora na Vila Prudente”? “Não, moro no Morumbi” “Ai, meu Deus, a menina preencheu tudo errado!”, diz, referindo-se à gênia da recepção. Suspira fundo, resmunga consigo e segue a ficha até a descrição do problema: “Inflamação no pênis”.
Sábado à noite. As putas já estão belas e perfumadas nas esquinas do centro velho, enquanto seus fregueses chegam mais pontualmente do que chegariam a um encontro com a namorada. Os carros param sem aviso prévio – afinal, não havia como prever que aquela bunda gostosa surgiria assim do nada, e o mancebo precisaria encostar o carro naquele exato momento para saber quanto ela custa.
Eu estou lá também, mas no carro de trás, indo fazer meu plantão de fim de semana no jornal. Algo que minha terapeuta diz ser a desculpa perfeita para a minha fobia social, e eu digo ser uma grana salvadora em vários meses do ano. Inclusive para pagar a minha terapeuta. Afinal, se eu fosse sociável e não tivesse esse dinheiro, para que porra eu precisaria dela?
Mas eu sou obrigada a parar de filosofar sobre o meu umbigo gordo para apreciar a seguinte cena: um casal deitado em um colchão no meio da calçada, com coberta e tudo. Dez e meia da noite e os homeless já se lançavam àquele soninho gostoso de um fim de semana friozinho. Mais um pouco e a gente podia usar o cenário pra fazer propaganda de sopa instantânea.
O que fodia todo o romantismo da coisa era que a mulher, provavelmente a dona do colchão, estava no meio de uma DR daquelas com o cara. Ela punha o dedo na cara dele e falava não-sei-o-quê séria, muito séria. O bofe, então, fazia que ia se levantar, no estilo “eu não preciso ficar aqui ouvindo isso”, mas o fato é que ele precisava (foi daí que eu concluí que o colchão era dela), porque ela puxava ele de volta e ele voltava. Ele realmente não precisava ficar lá ouvindo aquilo, mas dormir no chão duro e sem coberta era pior.
Enfim, o semáforo abriu, eu engatei a primeira, e a cena ainda se repetia, como um filme defeituoso. E então eu fiquei pensando que soberbo talento o ser humano tem de piorar o que já é suficientemente miserável. Você já está morando na rua e dormindo no chão, o que nos leva à conclusão de que você não tem um gato pra puxar pelo rabo. E então você faz uma DR?
Captaram o microfone da amiga Britney durante um show. Só a voz dela, sem aquele pré-gravado que o público ouve. Jisuis. Quero ver quando sair o da Madonna. Pensando bem, não quero não.
Existem momentos em que fico horas a olhar para o meu gato. Com inveja, sempre com inveja. Só Deus sabe o que existe na cabeça de um felino. Mas acompanho as rotinas dele e sei, filosoficamente falando, que ele é feliz.
Nós, humanos, seres temporais por excelência, vivemos aprisionados à ideia do nosso próprio fim. E, como se não bastasse essa terrível condenação, somos também incapazes de habitar cada momento inteiramente. O presente, em nós, está sempre carregado de passado e de futuro: do que fomos, das memórias que temos, do caminho e das escolhas que fizemos; e daquilo que gostaríamos de ser, ou ter, ou fazer. O presente, para nós, não é um lugar para estar. É uma breve passagem a caminho de outra breve passagem.
Sempre e sempre e sempre até a despedida final. Por isso, aconselho: se quiserem entender a natureza da felicidade, comprem um gato. E acompanhem a forma como ele cumpre as suas rotinas com entrega contida e total. Ele não espera nada, ele não deseja nada. A felicidade, para ele, não existe por adição: de objetos, experiências, lugares. Mas por repetição: ele repete as experiências que são significativas. E, em cada repetição, existe a certeza da mesma felicidade.
Um gato ajuda a entender tudo isso. Mas um livro publicado recentemente reforça a ideia. Confesso: comprei o livro sem expectativas numa livraria do aeroporto de Heathrow, em Londres. Só o título despertou a curiosidade: "The Philosopher and the Wolf: Lessons from the Wild on Love, Death and Happiness" (o filósofo e o lobo: lições do selvagem sobre amor, morte e felicidade; Granta, 246 págs.).
Não é manual de filosofia "ligeira". Longe disso. O livro de Mark Rowlands é uma mistura erudita de experiência pessoal e reflexão metafísica, em que Nietzsche, Heidegger e Camus têm participação direta.
Ponto de partida: certo dia, o professor Rowlands leu anúncio no jornal. Alguém vendia lobos por US$ 500. Rowlands entrou na aventura. Horas depois, a casa estava destruída pelo novo hóspede, de nome Brenin, que não poupou a mobília e as cortinas.
Primeira lição: um lobo não é um cão. E, nos 11 anos seguintes e após treino apertado, Brenin foi a companhia do professor. Em casa. Na rua. Em viagem. E até nas aulas, para espanto de colegas e alunos: enquanto o professor dissertava sobre Platão e Aristóteles, o lobo dormitava ao seu lado. As aulas terminavam com um uivo.
O livro de Rowlands é uma descrição pessoal de tudo isso: da relação idiossincrática de um homem com um lobo. Mas o livro de Rowlands oferece-se essencialmente como uma longa meditação sobre a natureza da felicidade humana. Ou, se preferirem, sobre a sua impossibilidade.
Impossibilidade? Precisamente. A modernidade ofereceu-se aos Homens como projeto de construção secular. Por meio da Razão, seria possível conquistar a "sorte" que tanto afligia os gregos e realizar na Terra o que a cristandade medieval apenas prometia para o Reino dos Céus. A felicidade seria uma construção individual e progressiva rumo a um fim determinado. Paradoxalmente, essa ideia libertadora apenas trouxe o seu reverso: se a felicidade era responsabilidade nossa, a infelicidade também.
E, adicionalmente, se a felicidade era convertida em projeto, ela seria igualmente convertida em insatisfação interminável: jamais estaremos onde queremos estar; jamais seremos o que queremos ser; jamais teremos o que queremos ter. A felicidade moderna converteu-se numa vigília permanente: a vigília de Homens insatisfeitos; de Homens esmagados pelos seus próprios ideais de felicidade e perfeição. Viver com Brenin ensinou a Rowlands essa crucial diferença entre Homens e animais: nós vivemos mergulhados no tempo e nas nossas próprias teleologias pessoais.
E a forma como desejamos sempre momentos que são posteriores ao momento presente impede-nos de viver qualquer momento de forma real e total. A infelicidade humana não nasce da nossa ignorância ou da nossa imperfeição. Muito menos da ignorância ou da imperfeição das nossas sociedades. A infelicidade humana é um produto da nossa específica temporalidade. Resta uma questão final: serão os Homens superiores aos animais?
A resposta de Rowlands talvez seja a mais honesta: depende do que entendemos por "superioridade". Sim, um lobo jamais pintaria o teto da Capela Sistina. Mas será a Capela Sistina uma necessidade para um lobo? Ou, pelo contrário, será antes uma necessidade para nós? Uma forma de completarmos a parte que nos falta das várias partes que nos faltam?
A coisa que eu acho mais infame no comercial daquele Boston Medical Group é o slogan: “Faça uma consulta e surpreenda sua parceira”. Vem cá, os caras estão sugerindo que o broxa vá fazer a consulta e não conte nada pra mulher? E então um belo dia ele aparece rijo e lustroso, bem no meio da novela, querendo graça?
Péra lá, já não basta a gente menstruar todo mês, sentir as dores do parto e ganhar menos, ainda que exercendo o mesmo cargo, ainda temos que ter surpresas desagradáveis, como um broxa que volta da terra dos mortos-vivos?
Veja bem, a mulher é um ser adaptativo por natureza. Então, quando o maridão para de funcionar, das duas uma: ou ela arruma outro que funcione, ou tira féria e se acostuma a ficar sem – o que, convenhamos, não é tão ruim quanto parece, afinal no sex é sempre melhor que bad sex.
Então imagina a situação. No caso 1, ela passou a tarde na farra com o encanador, chegou em casa, tomou banho, preparou a janta, e está pronta para dormir o sono dos justos quando o Aderbal começa a tirar a roupa.
- Vai tomar banho, querido?
Mas ele não responde. Só a olha com aquela cara de macho em chamas, e então os nove braços começam a surgir. Você tira um, vem o outro; você tira o outro, vem mais um. É hora de pegar pesado:
- Querido, não vamos nos colocar nessa situação de novo. Você sabe como isso termina.
E é aí que o Aderbal joga a bomba atômica na cara da coitada:
- O Boston Medical Group me salvou, Valeska. Tudo voltará a ser como era antes, meu amor [ao menos pro Aderbal, sublinhe-se].
E enquanto olha fixo pro teto, ela pensa: “Justo agora que eu estava acostumada com o encanador...”.
Já o caso 2 é mais grave e pode terminar em violência. A Valeska ta lá, vendo a Juliana Paes dançar na TV e vivendo de amores platônicos pelos canastrões do horário nobre.
Então chega o Aderbal, sem um pingo de respeito, no meio da novela.
- Ai, Aderbal! O que que é?
- O Boston Medical Group me salvou, Valeska. Tudo voltará a ser como era antes, meu amor.
- Aderbal, antes era um horror. É essa a notícia que você está me dando? Sai de perto! Não tá vendo que eu tô vendo a novela?
- Mas o Boston Medical Group me salvou!
- O Boston Medical Group me fudeu, isso sim.
- Eu não admito! Você tem que cumprir com os seus deveres de esposa!
- Eu já cumpro! Eu limpo a casa, economizo na quitanda e não espalho pro bairro que você é broxa. O que mais você quer?
Aí eu pensei em dois finais. Ou o Aderbal vai arrumar outra mulher para mostrar as maravilhas do tratamento do Boston Medical Group, ou ele insiste em atrapalhar a novela da Valeska e leva um tiro na cabeça. De cima.
A relação ruim entre São Paulo e FPF (Federação Paulista de Futebol) ganhou contornos históricos agora. O Guia Oficial do Campeonato Paulista deste ano dá o São Paulo de fato como ""rebaixado" em 1990 e ""mancha" o título paulista de 1991 do time.
""O São Paulo não se classificou nem na repescagem e foi rebaixado para a segunda divisão", diz o novo guia da gestão Marco Polo Del Nero, presidente da entidade que virou desafeto dos são-paulinos.
O livro histórico do Estadual, porém, obra de Rubens Ribeiro que tem todas as fichas de jogos do Paulista e ostenta a chancela da Federação Paulista de Futebol, mostra que não houve rebaixamento no Paulista de 1990 -o regulamento não previa descenso, e sim a divisão da elite em dois grupos.
O novo guia da federação, no entanto, coloca em xeque o Paulista seguinte, vencido pelo São Paulo. ""Foi um campeonato, no mínimo, esquisito. Beneficiou o São Paulo, que havia sido rebaixado, mas pôde disputar as finais", diz o guia -à época, o presidente da FPF era Eduardo José Farah, antecessor de Del Nero e que hoje é desafeto dele. (RODRIGO BUENO)
A FPF (Federação Paulista de Futebol) emitiu comunicado para corrigir informações do "Guia do Paulista", que dá o São Paulo como rebaixado no Estadual-1990 e que põe em xeque o Paulista-1991.
""A FPF informa que o texto publicado no "Guia do Paulista-2009" no que se refere a "O São Paulo não se classificou nem na repescagem e foi rebaixado para a segunda divisão" não procede", diz a nota, que saiu um dia após a Folha mostrar trechos polêmicos da publicação.
A FPF diz ""lamentar as informações", e o presidente da entidade, Marco Polo Del Nero, atual desafeto são-paulino, disse que o time foi o ""legítimo campeão de 1991" -o guia diz que esse Paulista foi ""no mínimo esquisito" e ""beneficiou o São Paulo, que havia sido rebaixado, mas pôde disputar as finais".
A FPF culpou o historiador Rodolfo Kussarev pelas informações. ""Como pesquisador há mais de 20 anos, assumo a responsabilidade", diz ele, que alega ter usado como base ""A História do Campeonato Paulista", de André Fontenelle e Valmir Storti. ""O livro foi escrito com base nas informações dos jornais da época, entre eles a Folha, onde os dois autores trabalhavam como repórteres em 1997, ano do lançamento do livro", disseram os jornalistas.
Livro de Rubens Ribeiro com chancela da FPF relata que não houve rebaixamento no Paulista-1990.
Eu passei os últimos 18 dias tentando pensar em algo útil para dizer no novo ano. O que, convenhamos, é uma perda de tempo, considerando que desde 2003 eu não escrevo nada que presta por aqui. Mas eu acho que escrevo, enfim...
Só que eu ando preocupada com coisas mais sérias, como arrumar dinheiro para retocar minha escova definitiva e descobrir uma drenagem linfática realmente eficiente para o que deveria ser minha cintura.
Inclusive, eu poderia passar três séculos discorrendo sobre como Deus esquece das mulheres após uma certa idade e até contar a história da discussão terrível que eu tive com a minha bunda nesta semana, quando ela pegou o elevador rumo ao subsolo e eu tentei argumentar com ela que ainda dá para ficar no quarto andar.
Eu estou despencando. E eu só descobri isso por causa da minha constante ojeriza à minha brancura original. Resolvi ser neguinha. Botei um biquíni, fui pra piscina e entrei em depressão profunda ao me comparar com as garotinhas que têm metade da minha idade.
E enquanto eu penso como leitora da revista Nova, meu cérebro funciona com apenas 20% da capacidade (dieta, cirurgia plástica, maquiagem, basicamente). Nessas fases não costuma surgir nada de útil. Mas o glorioso Luiz Felipe Pondé, que não usa biquíni, não tem seu cérebro bloqueado por esse tipo de preocupação. De modos que ele fez, como sempre, mais um texto magistral em sua coluna de hoje na Folha. Um bom princípio de ano novo.
A luz
Uma leitora pergunta: "O que é um ético de plantão?". O repúdio de algumas universidades brasileiras ao bombardeio da universidade de Gaza é um exemplo. Afora o fato de que não sabemos se o reitor ou o Exército mentiu (a rápida opinião de que prédios civis não sejam bases militares em Gaza já evidencia o amadorismo da discussão), o que chama a atenção é a rapidez com que os acadêmicos (minha tribo) se dispõem ao repúdio.
Intelectuais e artistas deveriam ser mais cuidadosos quando se fazem bastiões da ética, pois o mundo da arte e da cultura é marcado por toda forma de abuso de poder e vícios corporativos. Um ético de plantão faz poses de indignação sem nenhuma prática ética em seu quintal. A pose de indignação virou ferramenta do marketing. Claro que a vida real se dá em meio a um equilíbrio sutil de vício e virtude. Só que nosso ético de plantão negará isso, vendendo uma pose de quem vive fora desse mar cinzento.
Neste verão, confesso, estou assombrado pelos fantasmas machadianos: "Suporta-se bem a cólica alheia", diria Brás Cubas sobre esses plantonistas. A causa dessas assombrações é a longa exposição ao silêncio do campo desabitado e a escuridão. Aqui, tempestades nos deixam na escuridão pré-luz elétrica, e temos uma por dia. Fatos como esses nos devolvem às nossas origens: a luz elétrica é um dos bastiões da civilização contra as trevas. Acredito mais na luz da CPFL do que na do Iluminismo.
Voltemos à minha tribo. Muita gente boa (Carpeaux, Paulo Francis, Ortega y Gasset, Nisbet, Oakeshott) já falou sobre essa nova classe média produzida pela indústria universitária: engenheiros, médicos, cientistas, sociólogos, filósofos profissionais que entendem muito de uma coisa apenas, mas que têm opiniões fáceis sobre todo o resto. Nada mais bárbaro do que "o" especialista.
Esse bárbaro, a partir de seu pequeno diploma, emite juízos sobre, digamos, se devemos ou não colonizar a Lua, partindo de suas minúsculas manias que não se sabem manias. Confesso: também tenho as minhas. Exemplos? Creio que somos motivados mais por paixões ordinárias do que por grandes ideias, penso que mentimos a maior parte do tempo, principalmente quando falamos em nome do "bem coletivo", confio mais em quem se crê mal do que em quem se crê a favor do bem, tenho medo de que o medo seja mais essencial do que o amor e de que, na ausência de luz elétrica, nossas almas penadas nos visitem.
Por volta do século 13, os monastérios perderam o lugar de bastiões do conhecimento para as então recém-fundadas universidades. Temo que, assim como os monastérios medievais viraram poços de vícios e bandidagem, nossas universidades também sucumbam ao peso da mediocridade e do mau-caratismo. Lá em nome do imaginário do inferno, sei lá, cá em nome da miséria burocrática e da "produtividade".
Cara leitora, veja como agem muitos dos éticos de plantão da minha tribo, os mesmos que choram pela universidade em Gaza. Eles não se deteriam diante do aniquilamento de colegas unicamente porque discordam deles. Usariam o poder institucional para negar verbas de pesquisa a seus "inimigos", motivados por conflitos de interesses bem mais mesquinhos do que o conflito de Gaza. O discurso "do coletivo" na universidade quase sempre serve mais à ditadura da igualdade miserável do que à liberdade da diferença que faz diferença: a competência. Lobbies políticos destroem carreiras promissoras sorrindo pelos corredores.
Mas existem dramas gerados pela própria estrutura industrial do "produto científico", diria Adorno. O discurso da produtividade, sua quantificação e burocracia matam o cotidiano acadêmico. Reuniões intermináveis são gastas garantindo que não teremos tempo para nada de relevante. A solução é "produzir mais produtividade". Assim, os burocratas da produtividade prestam serviço à mais vil preguiça intelectual.
Milhares de artigos que não serão lidos são publicados em centenas de revistas que não serão tampouco lidas. Um mar de "objetividade irrelevante". Mas isso tudo ocupa tempo, gera pontuações e dá emprego ao banal. O que ganhamos com isso? A garantia de que a maior parte de nós estará ocupada com a burocracia da produtividade.
Mas por que aceitamos esse desfile de mediocridade organizada? Simples, cara leitora: porque a mediocridade, como uma boa mãe, cuida do futuro dos seus filhos.
Ontem foi o meu primeiro dia de férias. Eu já havia programado almoçar peixe com salada e passar a tarde vendo Arena Sportv.
Eu ia ver a Madonna no domingo, na pista. Só que a bicha me liga às 11h da manhã, perdida em SP.
"Bicha, a senhora tem que virar à direita e pegar a rua tal" "Ah tá. Ihhh, perdi a rua." "Caralho, viado! Péra que tem jeito. Anda mais duas quadras pra cima e entra na rua tal" "Não tem essa rua aqui, não" "Então anda duas para baixo" "Putz, passei a rua" "Bicha, pára esse carro e espera que eu vou buscar a senhora".
Tragos os viados pra casa. Vamos todas almoçar. As bis tinham ingresso sobrando pro show, na arquibancada. Ganhei um de presente de aniversário. Então passamos a tarde enchendo a cara de chocolate e depois fomos gloriosas para o Morumbi.
Atenção! Agora todas olhando para o flash! Isso! Parabéns! Ficou ótimo!
Madonna atrasou duas horas. Começou o show fazendo aquele playback. Torci para que ela cantasse. Então teve uma música em que ela cantou. Aí eu torci pro playback voltar.
Grosso modo, a Madonna vive há 16 anos de algo que ela não sabe fazer. É como se ela fosse taxista. Mas ao contrário do taxista que dirige torto e assistindo novela mexicana na TV preto e branco portátil, Madonna se cercou de outros fatores que a tornaram mais de que uma cantora. E foi isso o que fez o show dela muito legal, ao menos para mim.
As bis não gostaram. Nem os cambistas, diga-se de passagem. Vendiam ingresso para pista VIP por R$ 50. Foram eles que esgotaram os ingressos para o show em tão pouco tempo. Só que quando foi agendado mais um dia, todo mundo conseguiu comprar ingresso e eles morreram com os ingressos na mão.
Enfim, Madonna é esperta. Faz diferente arranjos para velhas canções, se mete com gente nova (nossa amiga Britney e o produtor que eu pegava Pharrell), sabe resgatar o antigo que não é brega (Annie Lennox e seu Eurythmics) e contrata os melhores editores de vídeo e de imagem para trabalhar com ela. Assim até eu.
Foi um show tecnicamente perfeito. E quer saber? Parece que até o público gostou.
---
Semana passada, meio que por acaso, assisti "Na cama com Madonna", na TV. O filme foi feito em 1991, quando ela tinha 33 anos.
Além dos penteados e modelitos assustadores que só a década de 90 teve e da constatação de que, aos 33 anos, Madonna ainda não havia aprendido a fazer uma boquete de qualidade, o filme marcou por uma frase dita pela própria: "As pessoas sempre falam como o sucesso muda você, mas ninguém fala como ele também muda as pessoas ao seu redor".
Aos 33 e com cinco discos lançados, ela parecia ter chegado ao topo. Andando de limosine e hospedando-se nas suites dos melhores hotéis, acho que nem a própria imaginava que seria mais ainda do que era à época.
Um ano depois ela lançou Erotica e virou o ícone fashion-gay que deixou sua conta bancária gorda para sempre. Porque se tem coisa que não acaba nessa vida é moda e viado.
Mas, enfim, Madonna já percebia que estava sendo mudada pelo sucesso. Mas, mais que isso, percebia que antes dela as pessoas já haviam mudado. A cena em que sua "amiga de infância" pede a ela que seja madrinha de seu próximo filho é digna de constrangimento.
O que mostra que os péla-sacos são mais importantes do que a gente pensa. São eles os responsáveis por tornar nossos ídolos pessoas completamente desprovidas de contato com a realidade.
André Forastieri, que agora tem um blog, escreveu melhor: "artista não é gente como a gente. Nossos ídolos só olham para o próprio umbigo. Têm certeza de que o mundo lhes deve homenagens e fortuna. Vivem cercados de parasitas que sobrevivem de lamber seu patrono e espalhar que qualquer arroto dele é “genial!”".
Uma pena. A Madonna que esteve no Brasil em 1993 saiu de peruca para conhecer a Mata Atlântica. A de 2008 mostra da sacada do Copacabana Palace o mar de Copacabana aos filhos. Três coitados que são criados dentro de bolhas e, ao contrário do passado da mãe, nunca terão um mínimo de contato com a realidade.
E é por isso que a Madonna tem certeza que canta. É por isso que a Susana Vieira tem certeza que é possível um cara de 38 ter tesão por uma mulher de 66. É por isso que o ultrapassado Caetano Veloso ainda se acredita porta-voz de algo. É por isso que a Preta filha de ministro Gil desfilou como rainha de bateria da Mangueira.
É porque no mundo de hoje tudo está à venda. Incluindo o respeito e o afeto.
Vamos combinar que a amiga Susana tem um santo forte, né?
Eu não faço mais piadinha tirando sarro por ela ter 68 anos e achar que tem 15. Susana Vieira é magra, gata e não tem gordura localizada, tampouco esparramada. É boa atriz, tem carisma e belas pernas. Aliás, eu só não tatuo a cara da Susana Vieira no meu corpo, porque o último que fez isso se fudeu.
Anyway, parece um conto de fadas de humor negro:
A tiazinha casa com o garotão. Toma chifre, perdoa. Ele mata o cachorro dela, ela perdoa. Vai viajar, leva o peso morto junto - e paga, claro.
Então descobre que tá tomando outro chifre. Aí separa. Primeiro o puto vai na TV e diz que a ama. Depois ele aparece na TV com a outra e diz que vai casar com ela. Mas o pior de tudo: diz que a tia foi uma mãe para ele.
M-Ã-E.
Se fosse comigo, eu também desejaria a morte [ainda que devido a um câncer de próstata].
Mesmo assim, eu tô apavorada com o santo forte da mulher.
O problema das mães solteiras é que elas acabam levando seus vermes junto quando vão provar roupas.
As casadas, não. Elas têm alguém para passear com as crianças pelo shopping, enquanto calmamente escolhem saias, vestidos e shorts para ornar o corpinho recém lipoesculpido naquela cirurgia chupa-banha que o maridão pagou.
Mas as mães solteiras, coitadas, além de terem que viver com a humilhação de um golpe que não deu certo, ainda aturam seus pequenos bastardos berrando enquanto dão o melhor de si para entrar naquela saia 46.
Sim, amiga. Sem marido, sem babá de shopping e sem lipo.
Melhor que a amiga Susana é imaginar a mãe do marido da amiga Susana embarcando no caminhão de mudanças rumo a Nilópolis (trilha sonora sugerida: "O portão", do Rei).
Agora, momento apavorada mesmo é a menina ter tomado cola-brinco do michê carioca suburbano e ainda assim ter resolvido ficar com o cara.
Acho que é mais negócio aturar o bastardinho berrando no provador mesmo. Já que é pra sustentar, pelo menos o filho é do sangue.