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Terça-feira, Dezembro 14, 2010
O gatinho
Ele nasceu às 5h55 do dia 5 do mês 5 da madrugada de uma noite de inverno. Ainda gritava de frio e de fome quando foi encontrado por uma mulher que acabara de ter o pneu do seu carro furado. A numerologia não falha, pensam os mais otimistas.
Penalizada, ela levou o pacote completo – mãe e dois irmãozinhos - para casa. Até que estivessem todos restabelecidos um dono haveria de surgir. Afinal, quem não quer um gatinho?
Como toda cria de gatos vira-lata, cada um nasceu de uma cor. Uma gatinha branca e amarela, um macho amarelinho e nosso gatinho todo mesclado, com o marrom como cor predominante. Dócil, mas feio o coitado.
Talvez por isso tenha visto a irmã ser adotada, o irmão ser adotado, e até a mãe ser adotada. Sem condições de criar um gato, a mulher que os salvou acabou entregando-o para o Centro de Controle de Zoonoses.
No mesmo dia, uma mulher que havia matado o gatinho da filha sem querer apareceu por lá desesperada em busca de outro animal. Precisa estar em casa antes de a menina voltar da escola. Mas tinha que ser branco, ou a menina desconfiaria de que não era o mesmo gato.
O CCZ não costuma ter muitos gatos disponíveis para adoção, explicou a veterinária. Eles costumam ser adotados com mais frequência do que os cachorros. Inclusive, naquele momento, não havia gato algum por lá. Apenas um vira-lata marrom. Quer ver? Quero.
Apesar de morar em um bairro nobre de São Paulo (ou talvez por causa disso), seu cheque especial estava estourado, não havia chances de passar numa pet shop e comprar um gatinho de raça branco. Ela tinha uma reunião importante em meia hora. Vai esse mesmo, disse. Com alguma lábia e um pouco de criatividade ela convenceria a pirralha de que é tudo a mesma coisa. O gato já estava até ronronando no seu colo, oras.
A numerologia é tudo mesmo. Nosso gatinho se viu em uma casa enorme, com um grande jardim, uma caminha fofa e muita ração. Cheirou, olhou, brincou. Enfim, um lar.
Até que a dona do gatinho branco chegar da escola. Entrou como toda criança, jogando suas coisas pelo chão. Com sua voz alta e aguda, gritava por seu bichinho. Não o encontrou. Foi informada pela empregada de que ele não estava mais lá. Mas havia um outro gato no lugar. Liga pra tua mãe que ela te explica, disse a resignada serviçal. Ela teve meras quatro horas de felicidade entre o óbito do felino branco e a chegada daquele vira-latas. Continuaria tendo que passar aspirador de pó todos os dias para dar conta daquele monte de pêlos que costumavam ficar impregnados por todo lugar.
Após alguns minutos de gritos que se revezavam entre Não, Eu não quero e Devolve o meu gato, a dona do gatinho branco desligou o telefone e correu para o quarto, onde passou algum tempo chorando. Parece que a lábia da mãe estava relativamente baixa naquele dia.
Enquanto ela chorava, ouviu um barulho no portão. Animada, levantou correndo, achando que era a mãe trazendo seu amado gatinho de volta. Afinal, esse negocia de levá-lo para uma fazenda florida não fazia o menor sentido, né?
Não era a mãe. Era o michê namorado na mãe. Encostado e jovem, ele voltava de sua academia de shopping e se dirigia a mais uma tarde de sol na beira da piscina. Já havia sido informado pela mulher do que havia acontecido. Aliás, só não havia ido ele procurar o gatinho porque não podia interromper sua série de musculação no meio. O whey perde todo o efeito se você não faz a série direitinho, sabe?
Tentou fazer jus à vida mansa e convencer a dona do gatinho branco de que o novo gatinho tinha poderes especiais, era melhor ainda do que o gatinho que fora embora.
Mais calma, a dona do gatinho branco, resolveu procurar pelo novo brinquedo pela casa. O michê o achou escondido no banheiro da empregada. Segurando-o pela mão, mostrou à menina, que o olhou com cara de nojo. Ele é feio, disse. Ainda segurando o vira-lata rejeitado, o michê argumentou. Mas ele já gosta de você. A frase prendeu a atenção da menina. Ele já gosta de mim? Claro. Olha só como ele te olha.
Esperançosa, ela foi pegar o bichano no colo. Assustado, ele saiu correndo. A menina do gatinho branco então voltou à sessão berreiro, e atrapalhou a tarde de piscina do michê.
A mãe voltou do trabalho no fim da noite. Deu uma com seu namorado bronzeado. Comeu seu peito de peru light. Deu uma espiada no quarto onde a filha já dormia. Perguntou sobre o gato. Está escondido no banheiro da empregada, disse o michê. Se é assim, deixa a ração e água dele por lá. Aproveita e põe a caixa de areia também. A empregada vai reclamar. A empregada que se foda.
Mas a numerologia, meus amigos, a numerologia não falha. A dona do gatinho branco se sentiu só. Não sabia mais como viver sem o seu brinquedo. Entediada e solitária, abriu a exceção das exceções. Foi até o banheiro da empregada tentar criar algum vínculo com aquele gato feio mesmo. Afinal, se tem algo que o ser humano não suporta mesmo é ficar sozinho. No resto se dá um jeito.
Como todo feio ele era fácil. Bastaram 15 minutos sentada na porta do banheiro para o focinho do gato aparecer. Ele fez carinho em sua cabeça, ele ronronou. Ela coçou suas costas, ele começou a andar de um lado para o outro se esfregando na mão dela. Ronronando, dizia à dona que ele era, também, seu dono. Ela jogou uma bolinha de papel. Ele foi buscar. Ela riu. Pegou um barbante e chacoalhou no ar. Ele tentou pegar. Resignada, a empregada aproveitou para lavar aquele banheiro que fedia há exatos 15 dias.
Entardeceu. De sua cadeira na beira da piscina, o michê olhava aquela garota enternecida com seu novo gatinho. Paz e silencio, enfim.
Mas para que servem as avós, não é mesmo?
Um belo dia, a mãe do cara que pagava a pensão alimentícia que sustentava todo mundo lá dentro apareceu no aniversário da neta. O presente? Uma gatinha branca para fazer companhia ao gatinho branco.
Não tem mais gatinho branco. Como não tem mais gatinho branco? Ele morreu. Mas morreu de quê? Ninguém me contou nada! Ninguém tem que te contar nada, já não basta o tanto que vc se mete na minha vida. Eu tô cagando pra sua vida, só quero saber como está a minha neta. E seguem-se mais alguns minutos de bate-boca.
E corta para os olhos cintilantes da menina ao ver aquela linda gatinha persa no meio da sala, em meio aos presentes. Agora sim, era tudo o que ela queria. O gatinho marrom foi cheirar a nova companheira, que se assustou com aquele gato grande olhando para ela. E antes que ele também pudesse se assustar com o susto da gatinha, levou um safanão da ex-dona do gatinho branco, agora dona da gatinha branca, cujo coração não comportava espaço para dois bichos de estimação. Com sua voz aguda, gritou Não machuca a minha gata, seu nojento!, passou a mão em seu novo brinquedo e saiu correndo entre as crianças no meio da festa.
Atordoado com o safanão, ainda sem entender direito o que havia acontecido e assustado com todo aquele barulho, o gatinho marrom foi para seu porto-seguro, o banheiro da empregada. E lá ficou por alguns dias, até receber uma inusitada visita. Uma fresta na porta fez um pouco de claridade entrar no banheiro. Ainda incomodado com a luz, ele viu aquele focinho achatado adentrando seu refúgio. A gatinha branca se aproximou devagar, pata ante pata, veio andando em sua direção. Cheirou-o, e recuou um pouco. Cheirou-o mais uma vez e recuou de novo, no que parecia um balé desengonçado e mal ensaiado. Ele também criou coragem e foi sentir o cheiro dela. Em sua língua, aquilo era um Como vai você?. Em alguns minutos, um dava banho no outro. Em algumas horas, dormiam aninhados.
A dona da gatinha branca voltou da escola. Cadê minha gata?, perguntou à empregada. Tá lá no banheiro com o outro gato. Ela correu até lá, pegou a gata com a mão e saiu. Foi abraçá-la e sentiu um certo incômodo com o seu cheiro. Ela estava exatamente com o mesmo cheiro daquele gato, droga! Vou dar banho nela, pensou.
Encheu a banheira da mãe de água, jogou bastante daquele sabonete líquido da L’occitane e mergulhou a gata que gritava desesperada lá dentro. Assustado com os berros da felina, o michê foi até o banheiro ver o que era agora. Alertado pelos gritos de sua nova amiga, o gatinho marrom também correu para lá. Era a primeira vez que entrava na casa desde que chegara, há quatro meses. Se virando como podia, ele miava alto, como se pedisse à dona para que soltasse sua amiga. Se virando como podia, o michê explicava à filha de sua provedora que gato não gosta de banho. Mas ela está fedida, argumentava a pirralha. Mas ela vai se lavar sozinha. Me dá ela aqui, disse o michê, já prevendo outro assassinato de gato e toda a história começando de novo. Pegou a gata, ainda com sabonete nos pêlos, enxugou-a muito toscamente e a pôs no sol. Agora vc deixa ela aqui até ela se secar, ordenou à menina.
Mas tão logo a gata tocou o chão com as patas, correu em direção ao refúgio. Sim, o banheiro da empregada. Foi seguida pelo vira-lata e pela menina, que o puxou pelo rabo para evitar que ele entrasse no banheiro junto e impregnasse a gata com seu cheiro de novo. Ao conseguir agarrá-lo direito, ela o jogou no lugar mais próximo que encontrou, a piscina. Desesperado e de posse do mais aguçado instinto, ele cravou suas unhas no braço dela, se segurando para não ir de encontro à morte. Suas garras afiadas cortaram a fina pele da menina, cuja voz aguda cortou os tímpanos do michê, que ainda se limpava de toda aquela bagunça no banheiro da casa. O que foi agora? O gato me arranhou. Mas assim, de graça? É, de graça.
Assustado, após arranhar a menina, ele havia entrado no banheiro da empregada, junto com a gatinha. Irritada, a pirralha encheu um balde de água e jogou lá dentro, em cima dos dois, que saíram apavorados, se escondendo nos arbustos do lado da piscina. Quando ela já corria atrás deles, foi surpreendida pelo michê. Agora chega. Mas eu quero brincar com a minha gatinha! Mas ela não quer brincar com vc! A empregada vai fazer um curativo no seu braço e vc vai para a sala ver tv. EU vou cuidar da gata enquanto isso. Mas ela vai ficar fedendo do lado do outro gato. Não vai, eu prometo, disse o michê com o mesmo tom confiável que já tinha funcionado tantas outras vezes com a mãe dela.
Naquela tarde, enquanto a menina se entretinha com a tv e depois com o celular e depois com a internet, o vira-lata e a gatinha branca se lavaram, se limparam, se aninharam e ronronaram enquanto dormiam, por hora, em paz.
Ao chegar em casa à noite, a mãe encontrou sua filha cortada, sua banheira cheia de pelos de gato e seus arbustos bagunçados. A empregada, mal-humorada, ainda terminava de limpar o banheiro após o balde d’água que a menina jogara lá dentro. Molhou toda a cama do gato, molhou toda a caixa de areia.
Ninguém viu como que o gato arranhou a menina. Então só havia uma versão a ser contada. Mas a mãe também não era idiota. É bem provável que ele não tenha arranhado a garota de graça, mas é certo que ela não quer mais o bicho. Ela já tem a gata que ganhou da avó mesmo. Esse gato só tá servindo para deixar a gata fedida. Se soltá-lo na rua, ela faz dois favores. Um pra própria filha, outro para o gato feio que terá a chance de encontrar outro dono. Abrir o portão não resolve. É provável que ele fique aqui na porta berrando.
Cansada, já fazendo a contagem regressiva das horas que lhe restavam de sono, ela passou a mão no gato e o jogou dentro da Pajero. Dirigiu até achar um lugar bacana: o parque Alfredo Volpi, que fica no cruzamento da Avenida Cidade Jardim com a Rua Oscar Americano. Se esse gato não arrumar um dono aqui, não arruma em lugar nenhum, pensou. Pôs o gato no chão e arrancou com o carro.
Apavorado, ele se encolheu ao se ver naquela imensidão em meio a tanto barulho. Estava entrando no parque quando se assustou com alguns garotos que saiam de bicicleta e correu em direção à avenida. Desviando dos carros, conseguiu chegar ao canteiro central, na frente do Bradesco. Mas viu algumas pessoas vindo em sua direção e correu para atravessar a rua. O semáforo havia aberto, e os carros vinham em sua direção. Com o coração a milhão e ele conseguiu desviar do carro que vinha na primeira faixa. Não desviou do segundo. A roda passou exatamente em cima de sua cabeça. Seu corpo ficou lá estendido, decaptado, numa poça de sangue.
Pela manhã, a menina passou ao seu lado quando era levada pela mãe à escola. Ela até o viu, mas achou que era um dos cachorros que sempre eram atropelados por lá. Em breve ele seria só mais uma mancha no asfalto, só mais uma história que não deu certo em São Paulo. Putz, mas e a numerologia? A numerologia que se foda.
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