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Domingo, Abril 10, 2011

 
Meu bullying

Esse lance de Realengo acabou tendo em primeira instância dois desdobramentos meio que óbvios: o primeiro é o blábláblá que tem tingido as páginas de jornais nos último dias; o segundo é a galera tirando o pó da memória e lembrando quando foi vítima/autor de bullying na sua infância.

Eu sou tão velha que na minha época não tinha esse nome. Aliás, não tinha nome nenhum, porque não era nem sequer um assunto. A gente nem comentava com os pais. Era como se fosse mais uma matéria da escola que tínhamos que estudar e passar. Mas ao contrário das outras, nessa não tinha professor ou livro ensinando como proceder. E muito menos internet, né?

Sofrer bullying é como entrar involuntariamente em uma guerra na qual você está programado para perder. Você está lá, na sua, chega um chato e começa a te zoar. Se o chato tem um “defeito”, beleza, você tem uma arma. Se ele não tem, ou você não vê nenhum, é como se você estivesse jogado no chão tomando pontapés: só vão parar quando cansarem.

Eu tinha um defeito óbvio: era gorda. E ser gorda é um looping sem fim: você é gorda > as pessoas riem de você > você fica frustrada > você come mais > você fica mais gorda.

Não satisfeita em ser gorda, aos 9 eu tive que começar a usar aparelho. Daqueles freios de burro. Curiosamente, parte dos meus problemas se resolveu graças a isso. Mais especificamente graças à embalagem do aparelho, uma bolsinha de plástico duro. Foi com ela que eu bati na cara de um menino que me zoou, para surpresa dele. O mais engraçado foi ele fazendo um esforço desesperado pra não chorar na frente dos amigos após ter apanhado na cara de uma menina. Uma menina gorda, ainda por cima.

Com isso, dos meninos eu me livrei. Porque eu batia neles mesmo. E como tanto eu quanto eles sabíamos que eles não podiam bater em mim (machismo, te amo), me zoar ficava uma coisa meio dolorida pro lado deles.

Mas faltavam as malditas meninas. E uma delas, em especial, era a maior filha da puta que eu já conheci. Tinha 11 anos. E, repito, era a maior filha da puta que eu já conheci.

Ela pegava no meu pé para tudo, fazia piadinhas, ridicularizava. Era indiferente se eu estava fazendo alguma coisa ou simplesmente existindo; ela sempre me inseria nos assuntos para me detonar. Sempre com a aprovação das outras meninas, outros anjinhos também na faixa dos 11 anos.

Eu acho que essa vaca me infernizou por mais de um ano, até que um dia eu falei em alto em bom som sobre o “defeito” dela. Não era propriamente um defeito, e eu não me orgulho muito do que eu falei, na verdade, até porque não era nem de longe o que eu pensava. E eu também nem vou dizer o que é, porque eu tenho medo de ser linchada pela turma dos politicamente corretos.

Mas se eu não achava que aquilo era um defeito, eu sabia que ELA achava. E era o que importava, né? Fora que foi tão bonito vê-la chorando compulsivamente, foi quase um pôr-do-sol em um vinhedo no interior da França. ♥

O fato é que a forma que eu encontrei para me livrar do bullying foi praticar o bullying.

As pessoas passam a te respeitar não porque elas adquirem uma inédita consciência sobre o mal que estão fazendo, mas porque passam a te enxergar como uma frigideira quente: se botar a mão ali, vai queimar.

De tudo isso, só dá para concluir o óbvio: a maldade humana não tem fim. Até porque o bullying persiste na idade adulta, no preconceito, no racismo, no machismo e na homofobia.

E com essas leis tão frouxas quanto professoras de ensino fundamental, a saída se resume a torcer para que ninguém implique com você.



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